Durmam com os anjos

Se a vida tivesse um manual de instrução o capítulo dos 30 diria o seguinte: “Tenha sempre a mão um bom charuto, alguma grana no bolso e um coquetel molotov”. Os três servem para liberar as tensões, mas cada um com seu charme, impossível de imitar.

Não, não há nenhuma raiva nisso. Pelo contrário, apenas um doce deslumbramento com o presente que é a única coisa que temos. A única certeza de que o “agora” ainda é nosso. Pode-se pensar no passado, esperar o futuro, mas o presente é o único tempo que existe. Simples.

Mas a vida não tem manual de instrução. Durmam todos com os anjos.

Acabei o Processo

Acabei o Processo, do Kafka. Sim, agora entendo o que é kafkaniano. Entendo pelo menos o que é possível entender, afinal a lógica do livro é totalmente absurda. Fiquei páginas e páginas tentando sacar a metáfora do Processo pelo qual passa o personagem.

A história é sobre a luta de um homem contra um processo criminal do qual é acusado. Tudo acontece de tal forma que fugir ou vencer o processo parece uma tarefa impossível. Lá estou eu no meio do livro e pouca coisa fazendo sentido. Em uma vão esperança me lancei pelas páginas seguintes esperando, tolamente, uma história com começo, meio e fim. Curiosamente, foi na contracapa do livro que encontrei uma frase que apareceu como uma luz. Não pude conter meu sorriso ao encontrar um pedaço de tábua ao qual eu me agarrei e dei sentido a tudo:

“O labirinto exemplarmente Kafkaniano do qual Josef K. tentará se desvencilhar traduz um sentimento que nos diz muito: o de que a razão pode pouco contra a banalidade da violência irracional”

Nada pior do que a violência banal, seja física, seja emocional. A opressão e o sadismo de fazer o próximo se sentir como um cão imundo, “como se a vergonha devesse sobreviver a ele.”

Foi isso o que entendi. Gostei muito, acho que serve para a vida. Para se proteger da violência irracional.

Tipo isso aí.

Be water, my friend

Já dizia Bruce Lee: “Be water my friend”. Porque a água pode se o que quiser. Ela se adapta a todos os espaços, ela toma emprestada a forma dos lugares que ocupa. A água pode ser suave e sutil como a garoa de um fim de noite. Pode ser destruidora como a correnteza que leva tudo que encontra pela caminho.

A água não tem medo do frio, simplesmente pode virar neve, gelo, e esperar a eternidade passar. Por tabela, faz isso de forma poética, criando cenas infinitas. Não importando o quanto tempo isso possa levar. Não tem medo do calor, simplesmente ficar invisível, vira vapor e vai flutuar no ar. Pode ficar lá pairando pra sempre ou pouco mais de uma hora até cair sobre nossas cabeças, suave ou de forma torrencial, nunca se sabe…

Mais acima de tudo a água é vida, é o alimento fundamental de toda forma de vida, é o que dá fluidez a existência. Deve vir daí o encantamento de contemplar o mar, olhar aquele universo sem fim e lembrar que 70% do nosso corpo é feito da mesma água que enche o mar.

Quem já passou uma noite de sede, querendo ir lá pega-la, mas sem força ou coragem para se levantar sabe a falta que ela faz.

Nada disso pode ser por acaso! Be water, my friend.

Verso e reverso

Bariloche é uma metáfora. Viajar é uma metáfora.

Esse deslumbramento com coisas que para muita gente poderia ser algo normal e corriqueiro na verdade revela um estado interior de querer ver o mundo com olhos gentis. Quantas experiências estamos dispostos a viver? Quantas paisagens aparentemente iguais, mas absolutamente diferentes podemos contemplar até nos cansarmos, achando inocentemente que já vimos de tudo?

Talvez seja tolice acreditar na “paisagem mais bonita do mundo” ou no “passeio mais incrível do planeta” (ou da galáxia, que seja!). Um espetáculo da natureza não faz sentido por si só. Aquela cena linda de cores cintilantes, tons espetaculares, reflexos, formas, cumes… só ganha sentido a partir do nosso olhar. E é preciso olhar com olhos gentis. Dar um rolê por aí te tira do cenário do dia a dia, te joga num outro palco para ter uma pequena chance de perceber o mundo, se olhar no espelho e não se reconhecer. Ter vontade de enfiar a cara lá dentro pra ver como é do outro lado.

Um poeminha de ultima hora para ajudar a entender:

(natureza falando): A poesia está em você / Meu pensamento está em você / Só em ti minhas formas tomam sentido / Eu existo e sou assim somente para perceber o que provoco no seu olhar / Você não pode me carregar, mas isso é desnecessário / Afinal, a poesia está em você / Eu estou em você / Meu pensamento está em você / Suas pegadas ficaram aqui no chão / Assim como os pensamentos e sua respiração.

A poesia está em você / Mas no final é só um pensamento / Na realidade não existe nada / Existe somente a realidade e o seu oposto, qualquer nome que ele tenha. 

Papilas felizes!!!

Realmente é estranho, mas eu tiro foto de comida. Ué, é parte da atração…

Diga-se de passagem, não engordei uma grama. Deve ser a lógica distorcida.

Mais umas e outras

Todas as cores

Na toca do coelho

Há uma estranha sensação neste espaço de tempo existente entre a viagem que ficou para trás e a rotina que se desenha no horizonte. É um espaço de tempo indefinido.

Não dá para voltar ao lugar de onde saímos, simplesmente porque saímos de um lugar que só existe no passado, hoje este lugar é outro. Hoje é o presente e nada é tão imutável. Mais ou menos aquela história sobre ser impossível atravessar o mesmo rio duas vezes…

Ao que parece, para onde você volta é uma pergunta que só pode ser respondida se for possível entender o que você se tornou.

Experiências de viagens são únicas e por isso são interessantes. É o que você viu, fotografou, aprendeu. É também o que você pensou enquanto estava lá, afinal longe de casa os pesamentos costumam fluir de forma diferente, quase um universo paralelo de lógica distorcida. Se bobear dá para esbarrar com a Alice.

Verdes, vários

Azuis, com s.

As montanhas no retrovisor

Eu confesso que na primeira vez que se falou em Bariloche imaginei uma cidade meio fake. A idéia de hordas de brasileiros invadindo a “brasiloche” me deixava com o pé atrás sobre o quão autêntica seria esta cidade. Perdoem-me, puro preconceito e coração fechado.

Bariloche é uma cidade fantástica, um pedaço especial da Patagônia Argentina com sua identidade própria. Essa identidade está na boa comida servida por lá, nas tantas cervejas locais e artesanais, na incrível paisagem que nos cerca. Depara-se com uma vista fantástica é uma certeza a partir do momento que se chega a cidade. O lago imenso tem um cor azul singular. Os cerros que cercam a cidade reúnem mais cores do que pode caber na tela de qualquer computador ou papel fotográfico: são marrons, cinzas, verdes, azuis e o branco absoluto do cume das montanhas.

Há muita gente nas ruas, hotéis belíssimos, isso e aquilo, mas nada consegue se sobressair diante dos cenários naturais. A natureza é imponente! Isso faz de Bariloche um lugar onde subir em qualquer teleférico ou dar uma volta de ônibus seja um passeio e tanto. As vezes nem é preciso se deslocar, basta arrumar uma boa vista e apreciar a cena.

Gastronomia, esportes, passeios turísticos, aventura, compras, badalação, introspecção. Faça suas escolhas.

Muy Amable

Será a casa do pé grande?

Uma opção muito divertida de passeio em Bariloche são as saídas noturnas para os bosques e arredores da cidade. Um desses passeios é para o Refúgio Neumeyer.

Um 4X4 te pega no hotel e segue por uma estrada morro acima de onde não se pode avistar nenhuma luz da cidade. Aos poucos a estrada de terra vai se transformando em estrada de neve e gelo. Com sorte se vê alguma lebre ou outro animal atravessando a estrada. Em determinado ponto o carro para, cada um recebe uma lanterna pequena e a partir daí é que realmente começa a ficar divertido.

Em uma trilha de neve fofa caminha-se por cerca de 30 minutos, talvez um pouco menos. Neste dia especificamente a lua estava cheia e o céu muito claro, permitindo até desligar as lanternas. A cena é muito bonita. Um campo todo branco que tem a escuridão como pano de fundo, olhando-se para o alto vê-se árvores enormes apontando para um céu imenso com a lua dominando os espaços com sua claridade. Um riacho corta as redondezas e quando se faz silêncio dar para ouvir o barulho da água. É uma cena tão inusitada para olhos destreinados que fica difícil não querer ficar pulando e rolando na neve.

Por mim a trilha podia durar uma hora, por mim dormíamos lá, mas acho que seria cansativo para a maioria das pessoas, o que iria inviabilizar o passeio e a estrutura montada para torna-lo viável.

A caminhada termina em um cabana onde uma janta quentinha nos espera. Parece a cabana do Papai Noel. No menu fechado: sopa de abóbora muito boa, carne nem tanto (passou do ponto) e sobremesa saborosa. Tudo muito aconchegante, o melhor passeio de todos. No final ainda tem uns mini trenós para descer de esquibunda na neve. Fui várias vezes.

bem no alto

As montanhas são fascinantes. Estar no alto delas parece ser um desejo comum a muita gente, ainda que poucas se empenhem para tal.

Certa vez um guia e estudante de antropologia que encontramos em Cuzco falou que o topo das montanhas canaliza a energia que vem da terra, por isso estar nas montanhas é tão fascinante. Faz sentido. Só isso explica ver gente que nunca fez esporte na vida em cima de duas tábuas para descer morro abaixo. Alpinistas perdem os dedos congelados somente para alcançar o topo de uma montanha!!

Isso explica um pouco porque Bariloche é tão legal e aconchegante. As montanhas são muitas, são pontiagudas, arredondadas, coloridas, verdes, marrons, brancas. Olhar as montanhas é uma viagem dentro da viagem. Uma viagem sem deslocamentos, apenas de reflexão. As vezes dá vontade de ficar olhando até entender, seja qual fora o ponto da reflexão.

Como disse lá no começo: não é onde você chega, mas o que se torna. 

Curanto

Na primeira vez em que estivemos na Colônia Suiça a moça que ofereceu a cerveja de degustação falou sobre o tal Curanto, uma comida tipicamente montanhesa que é servida todas as quartas e domingos. Fomos conferir.

Em um grande pátio comunitário ao ar livre várias barraquinhas vendendo artesanato e comidas típicas. La vamos… Trutas grelhadas com cebola, empanadas, pasteis, doces e mais doces, hamburger vegetariano (o melhor que já comi). Tudo isso girando ao redor do tão aguardado Curanto, um preâmbulo de quitutes até a chegada do prato principal.

O Curanto é um comida típica camponesa, talvez de tropeiros, carnes de várias espécies lingüiças e vegetais são assados em meio a folhagem e brasa quente no chão.

O evento tem cara de quermesse, compra-se o ticket para o almoço, prova-se alguns petiscos típicos e quando a refeição começa a sair, uma senhora vai chamando o nome dos felizardos. É a expectativa de um sorteio com a certeza de que você vai ganhar.

Pouco condimento, carne com sabor de carne, batata com gosto de batata. Muito honesto a 80 pesos uma bandeja que dá para duas e talvez três pessoas. Ainda tem um espaço fechado para quem quiser comer longe do frio.

Muito agradável mesmo.Faz a gente se sentir parte de um momento especial.